Nota da Diretora

MONTREUX nasce de uma perturbação.

Em 2017, empurrada pela crise política que atravessava o Brasil, me mudei para a Suíça e encontrei no Montreux Jazz Festival algo que não esperava: uma memória brasileira mais intacta do que qualquer arquivo que eu conhecia no meu próprio país.

Enquanto a música brasileira era ovacionada em um palco europeu, o Brasil elegia um presidente que exaltava a ditadura que tentou silenciar essa mesma música. Foi nesse deslocamento que entendi que a relação do país com sua memória não é apenas um traço cultural, mas uma estrutura que sustenta suas crises e molda sua dificuldade de se reconhecer no presente.

Sou brasileira, negra, filha de refugiados angolanos. Cresci ouvindo meus pais cantarem em umbundu, língua dos nossos ancestrais, sempre que alguém lhes pedia para contar a nossa história. A música era a resposta que dispensava tradução.

Foi assim que aprendi que a memória pode sobreviver mesmo quando tudo ao redor tenta apagá-la, e também o preço que se paga quando ela não sobrevive. Para minha família, preservar a memória sempre foi uma forma de resistência. Uma maneira de afirmar quem somos, mesmo quando tudo ao redor tenta nos apagar. MONTREUX nasce desse mesmo gesto.